Quando Shirlen Tavares chegou ao Parque Ayrton Senna pela primeira vez, ela ainda não tinha um brechó.
Tinha alguns vestidos enviados pelo irmão, uma arara e vontade de fazer alguma coisa com aquelas peças. Depois de ver um anúncio do Coletivo de Brechós, chamou o marido para conhecer o evento.
Os dois foram até lá, garimparam algumas peças e começaram a observar aquele movimento de roupas, expositores e clientes. Shirlen queria entender se também poderia participar.
Perguntou como fazia para montar um box. Indicaram que procurasse Val Reis, coordenadora do Coletivo de Brechós e uma das organizadoras do Desapega CG.
Shirlen se lembra exatamente da cena: Val estava sentada, almoçando uma marmita, quando ela se aproximou.
A conversa começou com uma explicação sobre o funcionamento do espaço. Ali, não entravam peças novas; a proposta era trabalhar com produtos usados, dentro da lógica dos brechós. Shirlen ficou um pouco desanimada, mas Val continuou a conversa:
“Por que você não monta alguma coisa? Monta um brechó. É legal!”
A sugestão foi para casa com Shirlen.
“Eu saí com aquela ideia na cabeça e fiquei pensando. Eu já tinha arara, já tinha um monte de coisa e estava me preparando para montar alguma coisa com os meus vestidos.”
Ela voltou a falar com Val, reuniu as peças e começou. Primeiro, com um box. Hoje, três anos depois, está com dois.
“Estou há três anos. Comecei com um box, agora estou com dois. Estou vendendo muito bem e estou muito feliz.”
Um recomeço fora de casa
O I Love Brechó nasceu em um período de mudanças na vida de Shirlen. Depois de trabalhar fora durante muitos anos, ela passou a ficar mais tempo em casa para cuidar da mãe, que hoje tem 88 anos.
A falta da rotina profissional e do contato com outras pessoas começou a pesar.
“Eu estava em casa entediada, tive crise de ansiedade, e pensei que isso seria uma coisa muito boa para a minha cabeça e para o meu bolso.”
O brechó trouxe movimento, convivência e renda. Antes de sair para os eventos, Shirlen deixa a comida pronta para a mãe, organiza o almoço, liga a televisão e prepara tudo o que ela precisará durante o dia.
Depois, segue para o trabalho.
A estrutura também cresceu. O que começou com poucas peças hoje ocupa uma carretinha engatada no carro, com cerca de 14 malas, além das sacolas e do próprio veículo.
“Comecei a ir com um negocinho. Hoje eu estou muito maior.”
Uma escolha pelo Coletivo
Embora tenha recebido convites para expor em outros lugares, Shirlen escolheu permanecer no Coletivo de Brechós. Desde que começou, participa dos eventos do grupo e encontrou ali uma forma de trabalhar com organização, parceria e tranquilidade.
“Hoje eu só trabalho com o Coletivo. Já me chamaram para um montão de lugares, mas eu gosto de trabalhar com o Coletivo. As meninas sabem o que estão fazendo, o evento é organizado, elas pensam muito nos expositores, nos clientes. Nos acolhem. Eu gosto muito de trabalhar com o Coletivo, é uma parceria que dá certo”
A trajetória de Shirlen começou quando o Coletivo já tinha sete anos. Agora, enquanto o grupo celebra uma década de história, o I Love Brechó comemora seus primeiros três anos — três anos vividos dentro dessa rede.
Foi também por meio dos eventos do Desapega CG que Shirlen encontrou novas possibilidades para ampliar sua renda.
Quando a necessidade vira oportunidade
Durante os eventos, ela percebeu que muitas pessoas passavam o dia no local sem ter onde comprar uma bebida ou alguma coisa para comer.
Começou levando água, refrigerante e poucos salgados. A procura foi aumentando.
“Eu comecei com uns 20 salgados. Hoje eu estou com 200.”
O que nasceu da observação de uma necessidade passou a ser mais uma frente de trabalho. Hoje, além das roupas do I Love Brechó, Shirlen leva bebidas e salgados para os eventos, sempre buscando manter preços acessíveis para quem está trabalhando e também precisa controlar os gastos.
Ela conta que os clientes já reconhecem seus produtos: a bebida bem gelada e o salgado quentinho.
Essa expansão representa, para ela, a força das oportunidades oferecidas pelo Coletivo. Nos eventos, cada participante encontra maneiras próprias de movimentar seu negócio e gerar renda.
Uma ponte entre pessoas
Com o tempo, Shirlen percebeu que o brechó também poderia contribuir para uma mudança na forma de consumir.
Para ela, a moda circular faz as peças continuarem vivas e cria novas conexões entre as pessoas.
“Além de conhecer novas pessoas, ganhar meu dinheiro e sair da minha casa para encontrar outras pessoas, eu vi também que podia mudar um pouco o mundo, o planeta que está aí.”
Ela resume essa experiência de uma forma simples:
“Eu acho que é também um meio de a gente se encontrar com as pessoas, é uma ponte. O Parque Ayrton Senna virou uma ponte.”
Foi nessa ponte que Shirlen encontrou o caminho para começar. E foi nela que construiu uma trajetória que hoje envolve roupas, clientes, salgados, bebidas, trabalho e novas relações.
O acolhimento que fez Shirlen voltar
Entre todas as lembranças do início, Shirlen destaca a forma como foi recebida por Val.
Para ela, aquela conversa durante o almoço poderia ter terminado de outra maneira. Se tivesse encontrado frieza ou indiferença, talvez tivesse ido embora sem voltar.
“Se não fosse a Val me acolher, me ouvir, hoje eu não estaria lá. Se ela tivesse me tratado com indiferença, eu poderia ter pensado: ‘Acho que isso não é para mim’. Mas a Val me acolheu e me deu a oportunidade de ir para casa, pensar e voltar.”
A experiência também mudou a maneira como Shirlen se relaciona com o público. Para ela, vender é mais do que oferecer uma peça ou fechar uma compra.
“Até quando a gente vende, a gente acolhe. Você acolhe aquela pessoa, e ela pensa: ‘Nossa, gostei de vir comprar aqui, gostei de estar no Coletivo’.”
Três anos de uma história que continua
O I Love Brechó nasceu de alguns vestidos enviados pelo irmão, uma arara e uma conversa durante o almoço. Cresceu até ocupar dois boxes, uma carretinha, malas, sacolas e novas possibilidades de renda.
Mas, para Shirlen, o mais importante é continuar fazendo parte do Coletivo e ajudar para que outras pessoas também encontrem oportunidades.
“Eu quero ficar com o Coletivo e com a Val anos e anos, até a hora que eu puder. Quero continuar fazendo parte da história do Coletivo.”
E completa:
“Eu quero que outras pessoas também tenham a oportunidade que eu tive.”
A história do I Love Brechó ainda está sendo escrita. De peça em peça, de evento em evento e de oportunidade em oportunidade — sempre com a lembrança de que, às vezes, uma nova trajetória começa em uma conversa simples, durante o almoço.


