O que começa como uma mudança de país pode se transformar em uma completa reinvenção de vida e carreira. Para uma jornalista que trocou o Brasil pelo Chile em 2011, a experiência foi o ponto de partida para uma nova paixão: a moda sustentável. Anos depois, essa paixão floresceu e deu vida ao Divina Segunda Mão, um brechó que une estilo, curadoria e um forte propósito de consumo consciente.
A Semente Plantada em Santiago
A jornada começou de forma despretensiosa em Santiago. Na capital chilena, os brechós não são apenas lojas de roupas usadas, mas verdadeiras boutiques, com curadoria e identidade visual, profundamente integradas à cultura local. “Lá, brechó é algo comum, muito presente no dia a dia das pessoas”, conta a fundadora. Inspirada por esse cenário e por uma amiga no Brasil, Val Reis, que também começava a se aventurar nesse universo, ela mergulhou de cabeça. A primeira venda, um vestido seu levado do Brasil, foi para amigas chilenas encantadas com o estilo brasileiro. O momento foi tão natural e divertido que abriu portas para outras vendas, transformando o desapego em uma prática constante. Mesmo seguindo a carreira acadêmica como jornalista e professora universitária, a semente da moda sustentável já estava plantada. “Sempre que viajava para o Brasil, comprava roupas ou ganhava peças das minhas irmãs e levava de volta. Acabava vendendo algumas, mesmo sem ter isso como objetivo principal”, relembra.
O Retorno e a Decisão de Empreender
O ponto de virada aconteceu em 2023, com a decisão de retornar ao Brasil após mais de uma década. A incerteza profissional a fez olhar para dentro e encontrar na sua paixão uma oportunidade de negócio. “Me vi diante da pergunta: ‘O que eu vou fazer chegando lá?’. Foi então que enxerguei a oportunidade de transformar algo que já fazia parte da minha vida — a moda sustentável — em um negócio.” Com essa determinação, ela voltou ao Brasil trazendo na bagagem não apenas roupas, mas um projeto de vida. Nascia assim o Divina Segunda Mão, um nome pensado para ressignificar o consumo. “Achei que fazia todo sentido porque, para mim, a segunda mão também pode ser algo divino. Escolhi esse nome para valorizar e dar essa força à moda sustentável e à reutilização.”
Um Brechó Moderno, Elegante e Único
Desde outubro de 2023, o Divina Segunda Mão opera de forma online, com atendimento personalizado por hora marcada. O estilo é definido em três palavras: moderno, elegante e único. O acervo inicial foi formado por peças do seu próprio guarda-roupa, muitas delas trazidas do Chile, garantindo uma curadoria cuidadosa e exclusiva desde o primeiro dia. O primeiro grande desafio foi participar de uma feira com o Coletivo de Brechós, apenas alguns dias após o lançamento oficial. “Foi uma verdadeira loucura, porque eu estava começando do zero. Fiquei preocupada, mas, felizmente, aquele dia correu muito bem. A partir dali, nunca mais parei.” A experiência solidificou sua perseverança e a certeza de que estava no caminho certo, e a ideia de desistir nunca passou por sua cabeça.
Vestindo Histórias e Quebrando Preconceitos
Para a empreendedora, o maior aprendizado é a importância da perseverança e da conscientização. “Trabalhar com brechó está ligado à moda sustentável e circular, e é fundamental conscientizar as pessoas de que comprar roupa usada não é motivo de vergonha — pelo contrário, é uma tendência mundial.” Ela encara o preconceito como parte de um processo de mudança cultural, lembrando que em países como o Chile, a prática é valorizada. O impacto em sua vida foi profundo, marcando uma transição de professora universitária para empreendedora. Financeiramente, o brechó é hoje sua principal fonte de renda, unindo propósito e profissão. A conexão com os clientes é um dos pontos altos da jornada. Ela se recorda com carinho do desapego de peças importadas e com valor sentimental, e da emoção dos clientes ao adquirirem itens tão especiais. “Os clientes sempre comentam o quanto adoram as peças, dizendo que são maravilhosas, com muito bom gosto. É gratificante saber que estamos oferecendo algo único.” Para ela, “vestir histórias” é exatamente isso: valorizar o passado de cada peça e dar continuidade à sua trajetória, escolhendo roupas com alma, significado e propósito.
O Futuro é Sustentável
Olhando para o futuro, os planos são ambiciosos. O sonho é ter um espaço físico e transformar o Divina Segunda Mão em uma referência de moda sustentável, um lugar onde os clientes encontrem qualidade, estilo e consciência. Seu recado para quem ainda hesita em aderir à moda de segunda mão é claro: “As pessoas precisam se abrir para essa tendência que veio para ficar. Reutilizar, reciclar e consumir de forma consciente é um caminho essencial para melhorar a qualidade de vida de todos nós.” Acima de tudo, ela deseja que a experiência no Divina Segunda Mão, seja virtual ou futuramente física, transmita leveza, tranquilidade e alegria. “Que saiam com o coração cheio e um sorriso no rosto — seja levando algo ou apenas tendo vivido uma boa experiência.”


