O que deveria ser mais um dia de trabalho e geração de renda para 60 expositoras do Coletivo de Brechós acabou marcado por transtornos e improvisos. Na sexta (23/10), a organização chegou ao Armazém Cultural, em Campo Grande, para organizar mais uma edição do DESAPEGA CG e encontrou o espaço ocupado por outro evento. A organizadora deste evento, que se apresentou como Juliana, recusou-se a desocupar o espaço sem informar o motivo.
A coordenação acionou a Secretaria responsável pela administração do Armazém para buscar uma solução e garantir o cumprimento da autorização concedida pela Prefeitura. No entanto, o problema não foi resolvido a tempo da realização do evento. Mesmo após a solicitação para desocupar a área, a outra feira permaneceu no local durante todo o sábado (24/10).
O episódio colocou lado a lado propostas distintas. Enquanto o Coletivo de Brechós promove a moda circular, o reaproveitamento de peças e o consumo consciente, a outra feira comercializava produtos importados. Para além das diferenças entre os modelos de negócio, o caso expõe uma questão fundamental: a utilização de um espaço público precisa ser organizada de forma que autorizações concedidas sejam respeitadas e os compromissos assumidos pela administração sejam cumpridos.
Diante da falta de uma solução, a coordenação precisou tomar uma decisão difícil: cancelar a feira ou reorganizar a estrutura para evitar que as expositoras perdessem um dia de trabalho e vendas. A opção foi manter o evento na área que restou disponível.
“Não estamos falando apenas de um espaço físico. Estamos falando do trabalho de 60 mulheres, de mercadorias preparadas para a venda, de compromissos financeiros e de famílias que dependem dessa renda. Nós fizemos o planejamento, buscamos a autorização e cumprimos os procedimentos necessários. Ainda assim, tivemos que improvisar diante de um problema que não foi criado por nós”, afirma Val Reis, jornalista, fundadora e coordenadora do Coletivo de Brechós.
O episódio levanta questões que precisam ser respondidas pela administração municipal. De que adianta conceder autorização para utilizar um espaço público se não há garantia de que ele estará disponível na data prevista? E, quando o uso autorizado não é respeitado, a quem os organizadores devem recorrer para assegurar a realização de suas atividades?
A gestão de espaços públicos exige planejamento, fiscalização e mecanismos de resposta capazes de evitar que conflitos deste tipo prejudiquem quem obteve autorização para trabalhar. Quando não há uma solução em tempo hábil, o problema deixa de ser apenas administrativo e passa a afetar diretamente trabalhadores, empreendedores e o público que participa desses eventos.
Criado em 2015, o Coletivo de Brechós atua em Campo Grande na promoção da moda circular, do consumo consciente e da geração de renda para mulheres empreendedoras. Ao longo de sua trajetória, a iniciativa contribui para fortalecer a economia criativa e ampliar o espaço da comercialização de peças de segunda mão na cidade.
Diante do ocorrido, a coordenação encaminhou uma notificação formal à Secult, solicitando esclarecimentos por escrito sobre a ocupação do Armazém Cultural e providências para evitar que situações semelhantes se repitam, mas ainda não obteve resposta. A reivindicação do Coletivo é objetiva: respeito às autorizações concedidas, transparência na gestão dos espaços públicos e condições adequadas para quem trabalha e gera renda por meio da economia criativa.
Para Val Reis, organizar um evento deste porte envolve planejamento, investimento, mobilização de pessoas e compromisso com o público. “Não é aceitável que as expositoras cumpram suas obrigações e, ainda assim, precisem arcar com as consequências de um problema que deveria ser resolvido pelo órgão competente. Garantir que o espaço autorizado esteja disponível é uma responsabilidade que não pode ser transferida a quem depende dele para trabalhar”, finaliza.

